segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

cansaços são passageiros...

Ela estava muito, muito cansada.
Cansada até das coisas que não acontecem. Mas tinha uma vida que pedia socorro para seguir em frente.
E não podia parar, embora desejasse muito poder mergulhar os pés em água florida, e torcer para que esse frescor subisse pelo corpo e pousasse em seu coração que precisava tanto sorrir. Ela precisava de um milagre.
Mas achava que nem acreditava mais neles.
Os milagres sobrenaturais e etéreos tinham ficado tão distantes...

De tão cansada fechou os olhos.
E, de repente, lá estava ela, a mãe solteira, criando seu filho no abandono do pai. E também as mães que são sozinhas mesmo na presença de seus companheiros. Criam seus filhos sabendo que a maternidade perfaz muito mais do que terem seus nomes num registro de nascimento. Sabem que a maternidade pressupõe acolhimento e desdenha absolutamente de documentos. Nem lembram o quanto vivem cansadas. E não percebem, mas enquanto esperam por um milagre, o fazem.

Então era isso, ela pensou, os milagres aconteciam na ação da sua busca.
Aconteciam no caminho.

Viu também o homem pobre e faminto, que tinha a solidão desenhada no olhar, mas quando diante de um naco de pão, sem nem titubear, alimentava com ternura primeiro o seu cão. Ele era outro milagre.
E o Nobel com quase 60 títulos, modesto diante do auditório lotado, falando baixo porque pessoas seguras sabem que não precisam dar autoridade aos seus ensinamentos. Ele compreende até mesmo quem o nega: todas as suas veredas são de paz. Seu despojamento era outro milagre.

Então talvez fosse por isso o seu cansaço, para que ela pudesse reconhecer as importâncias.
Para que voltasse a acreditar.
Para que descobrisse que cansaços são passageiros.
Mas o amor não é.
O amor é o próprio milagre.


Solange Maia

sábado, 13 de janeiro de 2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

lamento por isso, minha filha...

Se alguém me pedisse para descrever minha filha, diria que é a menina do sorriso mais iluminado que conheço, que ama pessoas, é falante, inteligente, alegre, tem personalidade firme e de uns tempos para cá tem um humor terrível pela manhã!
Só se a pessoa pedisse eu a descreveria fisicamente. Diria que é morena, com os cabelos longos, pele levemente bronzeada, uns 50kg e maravilhosos 1,72m de altura.
Mas quem a conhece sabe: Bebela é mais do que isso.
Na verdade, todos somos.

É por isso que lamento tanto que um dia desses, na praia, uns garotos a tenham chamado de “Avatar”.
Lamento mais ainda por ela ter corrido ao banheiro para chorar. 
Nem bem fez 13 anos e já foi exposta à crueldade e rigidez dos padrões e das ditaduras.
Estava tudo bem até que alguém começou dizendo que ela devia fazer progressiva no cabelo, que tinha o pé muito grande, que precisava se maquiar, beijar garotos na boca, “chupar a barriga” e fazer beicinho para sair na foto.

Como assim? O que o mundo anda ensinando aos nossos jovens?

Desejo que Bebela seja linda à sua maneira, que esteja de bem com a vida, que transborde delicadeza, que seja justa, curiosa, franca, feliz. 
Não sou hipócrita nem torço para que ela abdique da vaidade, muito pelo contrário, mas torço para que ela possa conhecer e valorizar a outra face da beleza. A que se sente. A que os dedos não alcançam. A que não acaba.

Lembro de Daniela Ospina, mulher de James Rodriguez (jogador do Real Madrid), sendo execrada nas redes sociais por ser “feia” e respondendo calma e elegantemente: “Desculpe-me se não atendo às suas expectativas, mas minha prioridade é atender às minhas”.

Nosso corpo é a realização material da nossa existência.
Toda a nossa trajetória está impressa nele.
Somos um milagre desde o nosso primeiro instante, filha.
Então, bonito é sermos exatamente quem somos.

Ademais, eles nem sabem o que é um Avatar...
Agradeça. Ser chamada assim é um honra, acredite.

Solange Maia

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

tudo que ela queria era o pai deste desenho...

Não foi o cinza do dia. Nem a garoa na vidraça.
Foi a conversa no meio da tarde que exigiu da menina muita coragem. Coragem interna, dessas que a gente precisa ter com a gente mesmo.
Porque era sempre a mesma coisa na hora de falar do pai: ficava em silêncio. Não conseguia.
Um silêncio que guardava uma dor antiga, sabíamos. 
E não era só pelo vazio físico, nem por aquela imensa ausência emocional, mas porque as pessoas desistem do que dói. E ela ficava aflita com isso.
Teve uma hora em que o distanciamento que era tão secretamente temido passou a ser desejado.
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Lembro-me de uma frase do Marcos Bulhões que dizia que “às vezes matamos o amor, mas em legítima defesa”. 
Pois é. 
Ela jamais desistiu do amor, era feita de afetos e de doçura. Desistiu foi de mantê-lo onde não era cuidado.
Fez bem.
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A figura do pai ausente acabou sendo a coisa mais presente que ele deixou.
Mas uma coisa é certa: ninguém escapa de olhar para trás e ver as escolhas que fez.
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A menina queria sim ter tido o pai deste desenho, mas tinha um tesouro ainda maior: olhava pra trás e podia sorrir ao ver as escolhas que fez.
Podia dormir em paz.
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Solange Maia
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(ilustração de Snezhana Soosh)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

amanhã é segunda-feira e quero ser um pouquinho melhor...

Ontem a noite minha irmã caçula me mandou uma fotografia dela tomando vinho e comendo queijo derretido.
Sozinha.
Perguntei se estava tudo bem, afinal estamos atravessando um momento muito difícil.
Ela respondeu:
- Não quero ser engolida por esta fase. Não quero dar o braço para a tristeza. Pretendo viver a vida da melhor maneira que eu puder.
Engoli seco e fiquei silenciosa.

Sou totalmente passional, em mim todas as células do corpo encolhem diante da dor. Às vezes demoro muito a sarar.
Mas ela estava absolutamente certa.
Sei que nossa mente investe 70% do seu tempo reproduzindo memórias, voltando a passados e criando cenários de “momentos perfeitos” que geram expectativas muito, muito perigosas. Tento driblar isso o tempo todo, afinal, sei também que a gente pode, e deve, “administrar” esses pensamentos.
Sei que as alegrias moram nas ‘pequenices’, e que a felicidade não pode ser uma meta.
Ela é caminho.
E está disponível o tempo todo.

Essa semana foi dura, muito dura, mas as alegrias estavam lá: conheci a ascensorista mais doce do mundo cuidando do elevador lotado do hospital, dormi todas as noites com as pernas entrelaçadas às do meu amor, passei horas com minha irmã do meio, que está doente, inventando um jeito de levar alegrias a uma sala de quimioterapia, estive perto de amigos muito queridos, fui a uma festa surpresa, senti o cheiro de uma bebê linda, vi uma dor desaparecer em 10 minutos, comi panquequinhas chinesas duas horas depois de achar que o mundo estava acabando, tomei chuva, muita chuva, e fiquei deliciosamente encharcada, li mensagens tão amorosas por aqui, achei graça ao constatar que minha filha já usa todos os meus sapatos, achei meu pai lindo de cabelo cortado, sorri ao ver minha mãe bordando com minha irmã camisetas de cura, meu amor fez um jantar pra mim, ganhamos cupcakes e pastel de feira, sentei na guia de uma rua arborizada e chorei no colo da minha irmã...
Conto então, as minhas bênçãos.
E percebo que tem horas que a gente precisa relaxar, 
precisa se desligar um pouco.

Amanhã é segunda-feira e quero ser um pouquinho melhor.

Solange Maia
(escrito em abril.2017)
fotografia "Eu e Bia" - minha irmã do meio

quando todos podemos ser Julia...

Julia já nem sai mais de casa.
Tão machucada, prefere ficar só.
Escondida da vida pensa estar se protegendo dos sofrimentos, mas não. Só o que faz é substituir uma dor por outra.
O peito dói. A solidão devora o tempo. Não há folga.
Já sem energia e muito cansada para buscar soluções novas.

De vez em quando chega a acreditar que não merece algo melhor.
Aceita e se resigna.
E cada vez se fecha mais.

Tem dias em que ela volta às coisas que já viveu e sente uma saudade imensa.
Julia quer de volta a sua vida. Seu sorriso solto, a vontade de namorar, os passeios pela orla, os filminhos do fim de semana, jantar com amigos...
Ela se deu conta de como são grandes as coisas pequenas!

Solange Maia

* - * - * - * - * - *

Julia que tantas vezes fui eu.
Julia que pode ser João. Que pode ser você.

DEPRESSÃO não é tristeza, ‘fase ruim’ ou mi-mi-mi, e não são só os adultos que passam por isso. Esta é uma dor cada vez mais comum, que deve ser tratada por profissionais.

Como uma das idealizadoras do lindo projeto “Nossos Doutores”, te estendo as mãos e te convido a encontrar ajuda.
Vem comigo! Fale-me o seu CEP e vou apresentar um profissional que vai te atender em seu consultório, pertinho de você e por um preço que cabe no seu bolso.
As dores emocionais são invisíveis, mas só a gente sabe o quanto ferem!

Encontre você mesmo: www.nossosdoutores.com.br

Seu PSICÓLOGO, médico, dentista, fonoaudiólogo, nutricionista e fisioterapeuta em + de 90 bairros de SÃO PAULO (e, em breve, em outros estados).

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

não preciso mais...

50 anos e começo a sentir preguiça de gente que rebusca as palavras.
Fazem-me lembrar de um professor de Penal: embora mestre em eloquência e em brocardos jurídicos, seu estado era sempre o mesmo: in absentia. Toc-toc? Não adiantava, não tinha ninguém.
Bons em discursos e em conversas solenes. Polidos, vaidosos, gostam mesmo é de se sentir ‘engajados’ nesta ou naquela causa. Falam, falam, falam. Sentem-se grandiosos, mas só o que vejo é um enorme vazio.
Estranhamente aprendo o silêncio com eles.
Minha alma quer ter tempo de olhar para o céu.

Ando querendo despir camadas e mais camadas.
Quero o que tem lá dentro.
Quero ‘desprecisar’.
Desprender.
Ter a coragem da nudez constante.

Quero fazer como contou Manoel de Barros:
tirar a roupa de manhã e acender o mar...

Palavras bonitas? Fico nua delas também.
Estou mais gesto.

Solange Maia

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

da minha infância...

É isso mesmo, Bebela e Clarissa estão na praia comendo coxinha!
Coxinha moderna: vem em caixinha de papelão!

Deixo escapar um sorriso nostálgico e lembro-me da praia da minha infância: D Nelcina (linda, pequenininha, o cabelo grisalho emoldurando o rosto negro e o sorriso de poucos dentes) vendia cocada branca num tabuleiro e cocada queimada no outro. Eram feitas no tacho, bem cedo, e ela as carregava até não restar nenhuma. Tinha também o Tio do sorvete de groselha, era vermelho só por 3 minutos, depois restava apenas o gelo branquinho no palito...

A praia tinha caramujos, muitos. E conchas enormes pela manhã. E peixes que nadavam ao nosso lado. Tinha água-viva e tinha siri. A areia quente queimava nossos pés e nossos ombros. A gente descascava!
E ralávamos o joelho, arrancávamos o tampo do dedão, e pisávamos em pregos enferrujados. Uns petelecos de vez em quando, mas todos, todos vivos no fim das contas. 

Soltávamos pipas feitas no final da tarde, fazíamos bolhas de sabão com caule de mamona, jogávamos taco e fazíamos telefone sem fio com latas e barbantes! Tomávamos banho de mangueira e comíamos bolinho de chuva. A gente nem sabia que existia colesterol!
As crianças eram como eram.
Não importava de onde vinham ou o que tinham. 
Tamanco de madeira, chinelos de borracha ou pés na areia. Éramos todos iguais.

E, juro, era tão mais fácil ser feliz!
Tão mais fácil...

Solange Maia

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

não queremos mais subir nos pódios...

Aprendemos a rir, falar, gesticular.
Aprendemos o corpo que devemos ter e as roupas que devemos usar. Então, o que fazer quando percebemos que não nos encaixamos mais nesses padrões?
Olho pra mim e vejo uma barriguinha redonda, suave. Os quadris bem mais largos, risadas sonoras, gestos amplos, menos filtros. Muito menos.
É assim que é. É assim que somos.
Para gente de olhos doces isto nos faz acolhedores, naturais, de verdade. Para os mais afoitos, isto nos exclui dos padrões.

Mas chega um tempo em que não queremos mais subir nos pódios, queremos só ternura, amores para pertencermos e algum lugar para descansar.

Já houve o tempo dos que estavam com “tudo em cima”, da perfeição festejada, do instante.
Mas agora que conhecemos a transitoriedade da perfeição, sabemos que ela tem data para acabar.
E passamos a querer as eternidades.
Quem já percorreu boa parte do caminho sabe que o tempo não poupa ninguém.

Esta beleza padrão, aprendida e esperada, é uma imagem bastante sabida, mas pouco nítida.
Temos vontade de ver as marcas deixadas pela vida. É a assimetria de nossos contornos que nos valida, os efeitos da gravidade que nos fazem reais e tão parecidos. Ah, sim, nossas deliciosas imperfeições são nossas assinaturas, a prova viva dos nossos caminhos.

E não pensem que nos falta apetite.
Nesta altura nos permitimos estar alheios às regras, sobretudo a das decências.
Amamos imaginar. Nossos pés nus bastam como insinuação à outra nudez.
Despir já não assusta e não há mais pressa, nenhuma.
Sabemos que imaginar é estender o prazer.
Desejamos devorar o amor.
Desejamos ser felizes.
Afinal, padrão é só um ponto de vista.
Só um lado da moeda.

Solange Maia


* fotografia de Chico Batata

quarta-feira, 19 de julho de 2017

para que não tenhamos preguiça de acontecer...

Podia ser dia, verão, ventania. A menina tinha sempre uma vela acesa nas mãos.
Sabia que para algumas pessoas os dias iam embora mais cedo: encolhidos ou endurecidos.
E tinha medo que esse tipo de abreviação nunca terminasse.
Então, daquela forma, pensava acender os caminhos. Queria não deixar nunca que o dia se apagasse.
A vida se apagasse.
Conhecia bem os caminhos de pedra que afastavam as pessoas do que tanto lhes faz bem.
Conhecia bem as pessoas de pedra que evitavam os caminhos que tanto podiam lhes fazer bem.
Aguardavam em seus esconderijos internos que a vida consertasse o que fez.
E alimentavam assim, a potência paralisante dos que não têm pressa. Viveriam amanhã.
Mas a menina entendia que o tempo não era feito para nos consolar. Queria ser vivido.
Hoje.
Tudo o que podia fazer era trazer uma vela acesa nas mãos e orquídeas escondidas no bolso.
E não parar de tentar acelerar sua ressurreição.
Ela amava as pessoas.  
E sabia que as demonstrações de amor podiam consertar o mundo.

Solange Maia

domingo, 16 de julho de 2017

difícil é ver alguém respeitar tristeza...

Difícil é ver alguém respeitar tristeza.
Muito mais difícil é ver uma tristeza sendo acolhida.
Já uma perna quebrada, um hematoma, um mal estar, estão ali, tudo posto, visível, compreensível e facilmente respeitável.
Tristeza não.
Tristeza é sutil.
Costuma ser confundida com frescura, fraqueza, TPM ou mimimi. E é sempre considerada passageira.
Não é.
As vezes a tristeza é o piloto. É perene, crônica.
E, acredito, só sara no amor.
Nesse, que as vezes a gente economiza com medo que acabe.
Mas não. De novo não.
Amor não acaba, ele sabe se multiplicar.
Dalva estava triste.
Uma tristeza pungente, já sem origem, cotidiana. Estava dolorida. Parecia por fora, mas era por dentro que doía mais. Mas quase ninguém via.
Precisava ser ouvida.
E urgentemente abraçada.

Foi o que fizemos... ontem, um pouco depois das nove. Dez adultos abraçando Dalva.
Ela sorriu. E chorou.
E sentiu-se muito melhor.
Foi embora tão grata, fazendo mesuras com as mãos.
O que talvez ela nunca saiba é que era eu sendo curada naquele abraço também.

Solange Maia